RELAÇÃO ABUSIVA: O EFEITO MONTANHA RUSSA

Que uma relação abusiva pode causar extensas e terríveis formas de dependência não é uma novidade ou um mistério. Porém, pensar que essa dependência se dá única e exclusivamente através daquilo que foi bom na relação, pode ser um equívoco.

Numa relação abusiva a dependência ou, se preferir, o vício, se dá pela dor, e não pelo amor.

Fica mais fácil de entender porque uma pessoa permanece numa relação dessas se você olhar desse jeito, embora os mecanismos por trás disso podem não ser tão claros à primeira vista. Por isso, eu explico.

UMA RELAÇÃO EXTREMA

Toda relação abusiva é uma relação intensa. Intenso, talvez, nem seja a melhor palavra para se utilizar. Pessoalmente, prefiro extrema. Extrema porque, além de levar a terríveis extremos de dependência e tolerância – essa é outra palavra chave que vou discorrer a seguir -, isso alude também a um conceito pouco conhecido cunhado pelo psicanalista Bruno Bettelheim, o de situação extrema.

Para Bettelheim, uma situação extrema é aquela capaz de abalar o psiquismo de tal forma que impacta sua própria estrutura. E, veja bem, não é qualquer qualquer evento traumático que tem este potencial. Para se ter uma ideia, o psicanalista cunha esse conceito através e para pensar a sua experiência nos campos de concentração nazistas.

Esta intensidade que vai constituir esta como uma relação extrema se dá em dois polos: o polo bom, geralmente sentido e interpretado como amor e presente nos momentos comumente descritos como lovebombing; e o ruim, que surge nas erupções do parceiro abusivo.

Estas erupções, por si só, são bastante traumáticas, uma vez que não costumam ter qualquer previsibilidade, colocando a vítima num estado de constante tensão, já que nunca sabe quando ou o que pode causar uma explosão dessas.

O mais comum, se você for acompanhar os relatos de quem habitou este verdadeiro campo de guerra, é que essas explosões comecem aos poucos e que aumentem com o passar do tempo.

Novamente, isso não acontece por acaso e também não sem nenhum efeito. Mas, antes de seguirmos, precisamos dar uma olhada no que as neurociências têm a nos ensinar.

O QUE AS NEUROCIÊNCIAS TÊM A NOS ENSINAR

Certa vez, li sobre uma experiência que é bastante útil para entender o que se passa numa relação abusiva, embora fale de seu exato avesso. Na experiência descrita, uma população de macacos era monitorada quanto aos neurotransmissores presentes em seus cérebros, mais especificamente a dopamina.

Durante o experimento, uma luz vermelha acendia sobre uma caixa e, quando isso acontecia, o macaco podia abri-la e retirar de dentro dela uma banana. O efeito disso era um pico no neurotransmissor associado ao prazer, exatamente como era esperado.

O mais surpreendente é o que se passa a seguir, com o passar do tempo: conforme a experiência se repetia, o que se observava era uma diminuição neste pico. A diminuição foi tanta a ponto de se pensar que a experiência de prazer havia se tornado irrelevante.

O macaco havia desenvolvido tolerância àquela experiência – tolerância, lembra dela?

Resolvendo mexer um pouco as coisas, os cientistas, então, removeram a banana. E aqui veio a surpresa: não apenas não havia mais picos de dopamina, como era óbvio e esperado, como os cérebros dos macacos apresentaram grandes quedas da substância, o que foi interpretado como falta ou abstinência, se preferir.

Temos aqui dois efeitos importantes: tolerância, que é a forma como o cérebro acostuma com determinado neurotransmissor a ponto de normalizar a intensidade de uma experiência e a abstinência, que surge quando o excesso da experiência passa a ser necessário como um novo normal.

O QUE ISSO NOS ENSINA SOBRE AS RELAÇÕES ABUSIVAS

Mas não é só com o prazer que podemos nos acostumar. De fato, no caso das relações abusivas, é com a dor – ou a adrenalina – que nos acostumamos, e não como o prazer, como podemos facilmente nos levar a acreditar.

Com o aumento gradativo das explosões, cada vez as vítimas se tornam mais tolerantes. Não raro, passam a aceitar até mesmo o que era inaceitável: espancamentos, traições escancaradas, humilhações, etc.

Essas explosões não aumentam por acaso: elas aumentam em consonância com a dependência e isso diz do funcionamento do abusador, geralmente com traços ou estrutura narcisista. Este, porém, não será motivo deste artigo.

Os efeitos da dependência da intensidade já eram teorizados pelo psicanalista Masud Khan em 1979 em seu livro Alienation in pervertions. O que ele aponta é que esta espécie de dependência pode não só ter sido desenvolvida na relação, como ser preexistente a esta – no que corresponderia a um perfil predisposto ao abuso.

A dor também afasta a sensação de vazio. Vivemos numa sociedade que produz demasiado vazio, bem como determinadas formas de parentagem tendem a produzir e reproduzir experiências de estruturação subjetiva bastante frágeis.

A dor – não o prazer – pode ser a amarra a atar numa relação abusiva. Ao se afastar do excesso emocional produzido por este tipo de relação, uma vítima pode experimentar uma verdadeira mortificação interna e, por isso, preferir até mesmo aquilo que a fere, pois o vazio pode ser tão avassalador que se torna insuportável.

Sair desse tipo de relação não é um trabalho fácil. Requer esforço, ajuda especializada e, principalmente, paciência.

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